Um pouco da nossa história

"Nós somos ondas a procura do mar" - Pierre Weil, educador.

Médico psiquiatra, professor universitário, chefe de departamento na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), casado, pai de dois filhos. Até 1992, Mauro Luiz Pozatti estava bem adaptado à ‘normalidade’ social – o que, viria a descobrir em seguida – não era sinal um sinal de saúde, no sentido ampliado do conceito, conforme ensinamento legado pelo filósofo indiando Jiddu Krishnamurti. Tinha finalmente vencido na vida. Mas, tal qual ouro de tolo, essa era uma grande piada sem graça e um tanto quanto perigosa.

 

A dissolução do casamento de 16 anos desencadearia uma crise totalmente desestruturante para aquela realidade. Uma morte, mas também um princípio de renascimento, conforme viria a aprender depois, estudando e experimentando, inúmeras vezes, com outros tantos milhares de homens. O obsoleto ficava para trás deixando uma dúvida fundamental sobre a qual se fundaria o novo.

 

Separado, com dois filhos homens, de 10 e 7 anos, Pozatti deparou com um questionamento até certo ponto habitual a um pai divorciado: como ensinar os meninos a serem homens não morando

com eles? Não foi a resposta, mas a falta dela, que levantou a indagação crucial: sequer ele sabia, mesmo após tantos estudos sobre psicologia e psiquiatria, afinal, o que era ‘ser homem’. Sem a pretensão ou percepção que assim fosse, surgia naquela interrogação o catalizador de uma grande transformação individual, que viria a se ampliar sobremaneira para o coletivo.

 

Científico, o médico recorreu aos livros. Mas não amordaçado pela cátedra acadêmica – o interesse por outras dimensões da consciência vinha desde a juventude – recorreu a abordagens mais existenciais, em especial o aprofundamento na prática de Respiração Holotrópica, método terapêutico-vivencial desenvolvido pelo psiquiatra tcheco Stanislav Grof.

 

Em um desses trabalhos, conheceu o artista e pesquisador australiano Craig Gibsone, morador da comunidade de Findhorn, Escócia, que facilitaria em São Paulo uma vivência chamada ‘Rumo à Nova Masculinidade’. Mobilizou 20 homens e partiu para uma jornada de quatro dias de holotrópicas culminada em um ritual “no meio do mato”, baseada em um mapa da consciência com os quatro elementos da natureza, com tecnologia dos nativos americanos, e que trabalhava a passagem do menino para o homem, psiquicamente.

“Craig propunha que nós homens nos conectássemos com nosso próprio coração e com o coração dos outros homens, para enxergarmos a partir dele e assim cuidar de nós e do mundo em volta. Aquilo mexeu demais comigo. Me marcou tanto e de tal maneira que e eu quis trazer isso para Porto Alegre”, conta Pozatti. Estava firmada a pedra fundamental..

 

Guiada pelo coração, a mente acadêmica formatou a proposta em um programa de oito encontros seguidos do rito de passagem. O primeiro grupo se iniciou naquele mesmo 1993, com quatro homens. Terminou com um, apenas um. O suficiente para que germinasse o movimento Guerreiros do Coração. Da busca sobre o que é ser homem surgia uma clareza intensa e verdadeira que só a percepção visionária, a liderança pela vontade, a sabedoria que advém do puro sentir e a ação amorosa são capazes de produzir. Para Mauro Pozatti, e muitos outros que viriam depois dele, auxiliar na transformação de homens por meio da ampliação da consciência se revelava mais do que um inabalável propósito de vida. Ainda hoje, vinte anos depois, é uma missão em honra e a serviço do Sagrado.